Kampibe Ajamu

Rosildo Barcellos*

É cediço que o desenvolvimento local tem sido aproveitado e aplicado como solução a incapacidade das políticas públicas centralizadas em dar respostas às demandas sociais.Famílias em situação de exclusão social e grupos sociais marginalizados devem ser vistos não só como os constituintes das populações atendidas pelos programas desenvolvidos nesse contexto, mas também o conjunto das organizações envolvidas.

Citarei como exemplo a comunidade quilombola de São Miguel, no município de Maracaju, que é a primeira comunidade de Mato Grosso do Sul a receber, em definitivo, o título de propriedade da terra onde vive. A área titulada possui 333 hectares, no entanto, a comunidade vive em uma área total de 420 hectares e abriga 16 famílias com 80 pessoas. Para se ter uma ideia do tempo de espera, para este fim A comunidade de São Miguel foi certificada pela FCP – Fundação Cultural Palmares – em 2005. O processo de regularização fundiária avançou com a edição do Decreto de Desapropriação em 20 de novembro de 2009, que declarou o território quilombola como área de interesse social.

Nesta dinâmica os projetos profissionais anulam-se, constroem-se ou reconstroem- se em função de forças e poderes presentes, e desta feita ainda existe uma seara imensa a percorrer. Por exemplo, precisamos discutir sobre a implementação da lei 11.645/2008 e a lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, – que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”para que estes temas estejam sempre presente nos nossos objetivos futuros. Existem núcleos conhecidos como o Furnas dos Dionísio, Furnas de Boa Sorte e São Benedito. Os dois primeiros, comunidades rurais , São Benedito é hoje um dos muitos bairros de Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul. Lembrando um pouco da história a Furnas do Dionísio leva esse nome porque o seu primeiro morador teria sido um senhor conhecido pelo nome de Dionísio, que chegou naquelas terras, localizadas dentro dos limites do município de Jaraguari a cerca de 100 anos atrás. a 40 Km da Capital.

São Benedito, por sua vez, teria como sua primeira morada a matriarca Eva Maria de Jesus. Segundo os que contam os seus descendentes, Eva era benzedeira e possuía uma inabalável fé católica. Construiu em torno de 1910, uma pequena igreja de madeira , hoje reconstruída em alvenaria e conhecida na cidade como A Igrejinha. Anualmente os descendentes de Eva realizam a festa de São Benedito, na semana do 13 de maio, festa tradicional na capital.

Furnas de Boa Sorte e a comunidade mais distante de Campo Grande, no município de Corguinho. Ressalto que somente através da Constituição Federal de 1988, a questão quilombola entrou na agenda das políticas públicas. Fruto da mobilização do movimento negro, o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) diz: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida à propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.

Em Corumbá, foi aprovada em votação simbólica, em uma sessão de março de 2012 da Câmara Municipal, projeto de lei que declarou de utilidade pública a Associação Quilombola Ribeirinha Família Ozório. Só para lembrar a comunidade, localizada na alameda Vulcano, no Centro de Corumbá, é formada por 400 pessoas, que são descendentes de quilombolas, por isso possuem o título de “Remanescentes de Quilombo”.

Cabe a nós que abraçamos esta causa e estamos empunhando esta bandeira elevá-la ao ponto mais alto e dizer a que viemos. A beleza da mulher negra é ímpar, além de estar sempre buscando manter as tradições orais dos pais e antepassados.  Nas próximas eleições, teremos mais uma oportunidade de discutir e realizar uma breve revisão da história. O país depende de nossa força de trabalho e de nossa vontade de servir ao próximo. E por isso precisamos de políticos alinhados com as causas sociais. É esse o exemplo de luta que é o legado da comunidade negra no Brasil. Por derradeiro desejo que essa luta não esmoreça ou ”Kampibe Ajamu” – que na língua (Iorubá), do continente africano Malauai, quer dizer: Vá e Veja! lute pelo o que quer.

  • Detentor da Medalha Legislativa Zumbi dos Palmares e do Troféu Tuiuiú Dourado da Federação Inclui Brasil. Laureado com a Comenda Vespasiano Martins. Já recebeu diversos prêmios Jornalísticos pelo Grupo Impacto de Comunicação. Profundo conhecedor da Histótia da arte musical e da cultura Sul-Matogrossense.

 

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