Análise: Protestos pró-educação desafiam a estratégia de polarização adotada por Bolsonaro

Para Bernardo Mello Franco, Paulo Celso Pereira e Antonio Gois, governo errou ao politizar e tratar ideologicamente o corte no orçamento do MEC, unindo até adversários. A insistência no confronto pode inflamar ainda mais as ruas, avaliam

O Globo

Bolsonaro provoca a rua

Bernardo Mello Franco

Depois de quatro meses e meio, o governo de Jair Bolsonaro enfrentou os primeiros grandes protestos. Estudantes e professores foram às ruas em mais de 200 cidades. Criticaram os cortes na educação e o sucateamento das universidades federais.

O presidente reagiu ao seu modo. Em vez abrir espaço ao diálogo, atacou os manifestantes. “São uns idiotas úteis, uns imbecis”, disparou, em sua segunda visita aos Estados Unidos. “A maioria ali é militante, não tem nada na cabeça. Não sabe nada”, prosseguiu.

Na terça-feira, o governo chegou a ensaiar uma manobra para esvaziar os protestos. Diante de uma dúzia de deputados, Bolsonaro ligou para o ministro da Educação e mandou cancelar os cortes. Era só encenação. Pouco depois, a ordem foi desautorizada pela equipe econômica.

O recuo do recuo gerou mais um curto-circuito no Congresso. Aliados que testemunharam a conversa sentiram-se enganados. “Se o governo não sustenta o que o presidente falou na frente de 12 parlamentares, não sou eu que vou passar por mentiroso”, esbravejou Capitão Wagner, do Pros.

Ontem o ministro da Educação seguiu a linha do chefe. Convocado a explicar os cortes na Câmara, Abraham Weintraub investiu no confronto. Provocou a oposição e perguntou se os deputados conheciam a carteira de trabalho, “a azulzinha”. Levou uma invertida do vice-presidente da Câmara, que comandava a sessão. “Eu me senti pessoalmente ofendido, porque também tive carteira assinada”, reagiu o deputado Marcos Pereira, do PRB.

O ministro atiçou a tropa bolsonarista, mas voltou a queimar pontes com aliados em potencial. Parlamentares do centrão, que o governo tenta incorporar à sua base de apoio, saíram irritados. A bancada da educação também reclamou. “Ele chegou com uma atitude ofensiva, não apresentou dados concretos e ficou inventando polêmicas”, resume a deputada Tabata Amaral, do PDT.

Ao atacar os manifestantes, Bolsonaro dobrou a aposta na polarização política. É uma estratégia arriscada, porque a eleição acabou e o presidente tem perdido popularidade desde que vestiu a faixa. Ao contrário do que ele disse, a educação não é bandeira de uma “minoria espertalhona”. Pode unir adversários e inflamar as ruas contra o governo. Chamados de “idiotas”, os estudantes ganharam um incentivo para dar o troco.

 

Presidente colhe a opção por politizar cortes

Debate poderia ter sido técnico se ministro não dissesse que universidades com ‘balbúrdia’ seriam retaliadas

Paulo Cesar Pereira

No dia 15 de março de 2015, as ruas de todo o país foram tomadas por protestos massivos contra o governo Dilma Rousseff, que havia sido reeleita no outubro anterior, na mais disputada eleição presidencial da História brasileira. Foi a primeira da série de manifestações que deram lastro popular ao impeachment. Naquela altura, a petista já estava no Planalto havia 50 meses. Ontem, antes mesmo de completar cinco meses na Presidência, Jair Bolsonaro tornou-se alvo de protestos por todo o país.

Desde sua eleição, Bolsonaro escolheu três ministérios para travar sua batalha ideológica: Relações Exteriores, Direitos Humanos e Educação. Enquanto os dois primeiros têm relação apenas indireta com a vida dos brasileiros, o terceiro faz parte do dia a dia da população.

De acordo com o Censo escolar do ano passado, 39,5 milhões de brasileiros estavam matriculados nas escolas públicas do país. Além deles, boa parte dos 9 milhões que estão no ensino básico privado sonham em um dia ingressar nas universidades públicas, que abrigam hoje quatro milhões de estudantes.

Apesar de o país reunir uma vasta gama de especialistas no tema, Bolsonaro escolheu para a pasta o professor Ricardo Vélez, um ilustre desconhecido. Sua curta gestão foi marcada por polêmicas que iam da determinação de execução do Hino Nacional à afirmação de que “o brasileiro viajando é um canibal”. O economista Abraham Weintraub o sucedeu com o mesmo espírito. Até que vieram os cortes.

Da noite para o dia, as universidades e os institutos federais foram informados de que teriam de limar 30% dos gastos não obrigatórios. A discussão da medida poderia ter sido técnica, ante a gravidade da crise econômica que atinge o país há cinco anos. Mas foi o próprio governo que a tratou como uma decisão política quando o ministro disse, inicialmente, que ela se daria sobre instituições onde houvesse “balbúrdia”. A reação veio ontem.

Jair Bolsonaro conseguiu se eleger sem ter partidos, fundo de campanha ou tempo de TV. Na esteira do antipetismo, obteve notáveis 55% dos votos. Desde então, sua popularidade vem sendo minada a passos largos. O Congresso vem mostrando que já não teme as bordoadas ou tuítes do clã presidencial. Quem encheu as ruas ontem também não.

 

Bolsonaro e seu ministro da educação jogam querosene no fogo

Medidas do governo inflamam população e podem alcançar consenso inédito na área

Antônio Gois

Para além do discurso vago de que Educação é prioridade, formar consensos no setor educacional é tarefa quase impossível no Brasil. Bolsonaro e seu ministro da Educação, Abraham Weintraub, caminham a passos largos nessa direção.

Ontem, no mesmo dia em que sindicatos de professores de escolas particulares participavam ao lado de outras entidades das manifestações que levaram centenas de milhares às ruas, a Abepar (Associação Brasileira das Escolas Particulares) divulgou uma nota criticando a “sucessão de medidas emanadas do MEC que podem pôr em risco conquistas educacionais históricas e ameaçam alguns pilares da Educação nacional”.

O governo Bolsonaro não foi o primeiro a contingenciar recursos de universidades federais, mas a forma como conduziu o anúncio — cortando de um dia para o outro as verbas disponíveis depois da desastrada entrevista do ministro relacionando os cortes a “atos de balbúrdia” nos campi — conseguiu a proeza de fazer a medida ser criticada tanto pelos que defendem mais recursos para as federais quanto pelos que criticam a ineficiência dessas instituições.

Antes da ameaça dos cortes, o presidente e seu ministro já haviam apontado suas armas para os cursos de Humanas, notadamente os de Filosofia e Sociologia. A medida gerou reação imediata, inclusive de pesquisadores e entidades ligadas às Ciências Exatas.

O establishment político, em sua maioria, errou feio em seu diagnóstico sobre as eleições de 2018, minimizando as chances de um candidato com alta rejeição, sem tempo de TV e sem estrutura partidária conseguir se eleger com uma estratégia voltada principalmente para as redes sociais.

Passadas as eleições, o jogo mudou, e as regras agora são outras. A tática do confronto permanente pode ter elegido Bolsonaro, mas governar o país exige outras habilidades. Entre elas está a busca pelo maior número possível de aliados para viabilizar ações que em muitos casos enfrentarão resistências.

As manifestações de junho de 2013 começaram com um pequeno grupo de esquerda protestando contra aumento de tarifas. A truculência da Polícia Militar de São Paulo fez o movimento crescer, e deu no que deu. Bolsonaro e seu ministro não precisam da PM. Especialmente na Educação, são eles mesmos que fazem questão de jogar querosene no fogo.

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