Morre Bibi Ferreira, maior diva do teatro brasileiro

RIO — Maior diva do teatro musical brasileiro, a atriz Bibi Ferreira morreu na tarde desta quarta-feira (13), vítima de parada cardíaca. Ela estava em sua casa, no Flamengo, quando passou mal. A informação foi confirmada pela filha dela, Teresa Cristina, fruto do relacionamento com Armando Carlos Magno — segundo de seus seis maridos.

— Ela partiu às 13h, serenamente — contou o empresário e amigo, Nilson Raman. — Passou seus últimos dias em casa, dormindo na maior parte do tempo. Hoje, reclamou de falta de ar e, em seguida, se constatou o óbito. Bibi foi protagonista absoluta do seu palco e da sua vida. Foi muito lindo o que ela fez.

Bibi Ferreira nasceu num tempo em que ser ator não era status social aceitável nem sequer profissão regulamentada. Mas por ser filha de quem foi — da bailarina espanhola Aída Izquierdo e do ator Procópio Ferreira, um dos responsáveis pela profissionalização do ofício no país —, Bibi viveu e contribuiu para a passagem do então sub-ofício a uma profissão capaz de transformar artistas em semideuses da cena, em divindades vivas. E Bibi se tornou uma delas; ou melhor: a maior delas. Atuou com firmeza até os seus 96 anos, como um mito vivo, em atividade, e com plena consciência do que fez e do que ainda gostaria de ter feito:

— Eu tenho consciência de tudo o que eu fiz, tudo — disse em entrevista ao GLOBO, em janeiro de 2018. — Embora tenha começado profissionalmente com meu pai, entre 18 e 19 anos, lembro de dançar no Municipal do Rio, com 6 anos, de fazer o filme “Cidade mulher” (de Humberto Mauro) quando tinha 13, de ser ensaiada pelo Noel Rosa… Então são quase 90 anos no palco. E continuo fazendo.

E quando lhe perguntavam sobre aposentadoria, Bibi respondia:

— Eu me aposentar? Olha bem! Não penso nisso por três razões: estou muito bem, ia ficar tudo muito triste, e preciso trabalhar — disse ao completar 90 anos.

ESTREIA NO PALCO AOS 24 DIAS DE VIDA – Apelidada de Bibi, Abigail Izquierdo Ferreira teria nascido em 1º de junho de 1922, no Rio, porém duas datas aparecem como referência de seu nascimento: seu pai falava em 4 de junho, e na certidão de nascimento consta 10 de junho. Por não saber a data ao certo, a atriz passou a comemorar seu aniversário a cada dia 1º.

Seus pais, tios e avós viveram profundamente ligados ao circo e ao teatro. E foi no picadeiro familiar dos Irmãos Queirolo que Bibi surgiu pela primeira vez em cena, aos 24 dias, nos braços da madrinha, a atriz Abigail Maia. Substituiu uma boneca de pano que havia sido perdida e que era utilizada numa cena da peça “Manhãs de sol”, de Oduvaldo Vianna, pai do também dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho. Depois, aos 3 anos, Bibi passou a animar os entreatos das peças da Companhia Velasco, que sua mãe integrava depois de se separar de Procópio. Após uma infância marcada por estudos de ópera, piano e violino, tendo participado do Corpo de Baile do Municipal dos 7 aos 14 anos, Bibi faz sua estreia profissional junto ao pai, em 1941, quando, aos 18 anos, atuou em “La Locandiera”, de Carlo Goldoni.

Sempre precoce, no ano seguinte montou a sua própria companhia, que absorveu grandes nomes do teatro, como as atrizes Cacilda Becker e Maria Della Costa, além da diretora francesa Henriette Morineau, influência que levou Bibi a se tornar uma das primeiras mulheres a dirigir teatro no país — em sua estreia na função, ela guiou o próprio pai em cena, na peça “Fizemos divórcio” (1947), um sucesso estrondoso.

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