Na “Bronca do Eli”, diretoria da AFAPIP aborda realidade de ex-ferroviários e da via férrea do MS

Nesta terça-feira (14) o programa “Bronca do Eli” traz o presidente da Associação dos Ferroviários Aposentados, Pensionistas e Idosos do Pantanal (AFAPIP), Valdemir Vieira, acompanhado pelo diretor instituição e ex-deputado federal, Manuel Vitório para falar sobre a questão da malha ferroviária no Estado, a realidade dos ferroviários aposentados da antiga Noroeste do Brasil, entre outros assuntos ligados ao tema.

O presidente da AFAPIP, Valdemir Vieira, lembra que no período de plena atividade da estatal ferroviária eram 4.100 funcionários atuantes no que tecnicamente era chamado de ramal, ou seja, a malha ferroviária que ligava três cidades, Corumbá, Bauru e Ponta Porã, o que representa 1.620 km de extensão. “Nossa associação conta com cerca de 600 afiliados, mas o número de aposentados é muito maior, 2.300 ferroviários sendo que fazemos o atendimento indo na localidade, vê a dificuldade que cada um tem”.

Dificuldades que segundo ele é ainda maior para cerca de 300 a 400 ex-ferroviários que ainda não conseguiram se aposentar dentro da classe de trabalho em que atuou. “São pessoas que não conseguiram se aposentar ainda em virtude que de não se conseguiu atender esse público. A empresa foi privatizada, mas em todo o processo ignoraram a conservação de documentos, houve um lapso de documentos. Algumas estações, por exemplo, foram destruídas e com elas se perderam documentos importantes”, enfatiza o diretor institucional da AFAPIP, Manuel Vitório.

Outro grande entrave na situação de grande parte dos ferroviários da época se deu por conta da legalização do patrimônio mobiliário da empresa. “A Noroeste do Brasil foi privatizada no dia 5 de março de 1996, onde uma corporativa americana arrematou a empresa em um leilão. Lembro que fechamos o ano de 1995 com um faturamento de R$ 47 milhões, mas mesmo assim privatizaram. No entanto, o problema foi 3.600 imóveis da empresa entre fazendas, iates, terrenos e até ilhas foram cedidos para prefeituras e outros órgãos em troca de IPTU e esse processo repercutiu negativamente nos direitos trabalhistas dos ferroviários”, disse o presidente.

“O processo de privatização teve um impacto muito grande. Foi uma das privatizações mais desastrosas do Brasil, onde se jogou trabalhadores inclusive com problemas de saúde, trabalhadores com mais de 30 anos de serviço na rua, na época. E, muitos trabalhadores estão se aposentando só agora, muitos fazem bico ou se tornaram caminhoneiros ou estão em outras profissões, alguns doentes”, observou Manuel Vitório.

Um processo que trouxe prejuízos não apenas para os trabalhadores da ferrovia como para a população como aponta Manuel Vitório. “Se houvesse uma intenção boa dentro do processo de privatização, iriam colocar o trem passando pelo lado de fora da cidade, no entanto, todo esse sistema que tem aí de trilhos dentro da cidade poderia ter sido transformado em trem urbano, os famosos VLTs, e nós não teríamos essa situação caótica do sistema de transporte urbano que tem em Campo Grande hoje”.

Uma ação que foi na contramão do desenvolvimento urbano, conforme detalhou o diretor institucional. “Todo mundo quer ter uma moto e um carro e a gente vê a tragédia que é isso aí. A Prefeitura não consegue responder, o Detran não consegue. Se você for em cidades não só o Brasil como fora, em 2001, fui a Paris, por exemplo, em uma missão e conheci um transporte multimodal em que se usa o trem simples, o trem bala e você usa tudo isso articulado com o transporte rodoviário, não apenas para cargas como para passageiros. Portugal também é outro bom exemplo. Lá, naquela época, saía 16 trens por dia da estação central de Paris sem problema algum, porque a prefeitura e governo fizeram aquelas passagens, por cima ou por baixa, viadutos ou tuneis para não atrapalhar os carros”.

“Então, Campo Grande que tinha 700 mil habitantes era dito que um trem na cidade era impossível circular de uma forma equivocada. Hoje, se vê no País todo que o que se discute não é o transporte rodoviário ou ferroviário, mas o transporte multimodal. Você organiza o transporte e viabiliza a mobilidade das pessoas, reduz a violência e os impactos do trânsito, os acidentes”, afirmou Valério.

E os impactos negativos repercutiram inclusive no turismo do Estado tirando do trilho o Trem do Pantanal, aquele que, atualmente, existe apenas nas memórias dos mais velhos e em canções regionais. “Foi um erro a desativação do Trem do Pantanal. A última tentativa não teve sucesso porque levava os passageiros do nada para lugar nenhum, ou seja, os passageiros só chegavam até Miranda e não ia de fato para o destino desejado que era o Pantanal. Daí a importância da associação porque lutamos pelos aposentados e defendemos até hoje a volta do Trem do Pantanal e a malha ferroviária em todo o Brasil”, justifica Manuel Vitório.

“Eu acho altamente viável o retorno do Trem do Pantanal, principalmente, hoje quando se está discutindo alternativas econômicas, e o turismo tem um peso muito grande no nosso Estado, por conta das belezas naturais, o cerrado e Pantanal, belíssimo que nós temos. A nossa vizinha, Bolívia, a gente vê que preserva o trem pelo fato de ser importante para o turismo. Eu acredito na viabilidade de se discutir isso. A gente vê o governo do Estado interessado na reestruturação dos trens de carga, acho louvável porque o Estado é um grande produtor de grãos. Mas, não se pode esquecer-se da importância do trem de passageiro”.

A alternativa encontrada pela AFAPIP para reavivar essas discussões é levar a pauta ao conhecimento da Casa de Leis do Mato Grosso do Sul. “Já estivemos reunidos com parlamentares conversando a respeito e a nossa intenção é promover uma audiência pública para discutir isso e assim fomentar esse nicho de turismo que gera muitos empregos. Através da Associação e juntos com os parlamentares, queremos levantar essa questão do trem para transporte de passageiro, em especial, sobre o Trem do Pantanal, que se executado da forma correta poderá gerar emprego e alavancar o turismo”.

Em Campo Grande, a Associação dos Ferroviários Aposentados, Pensionistas e Idosos do Pantanal (AFAPIP) tem um escritório na Rua Sergipe, 731. Já a sede fica no município de Aquidauana, prédio cedido pelo DNIT.

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