Ex-ladrão de carros da zona leste de São Paulo e hoje apontado como o principal ‘funcionário’ de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, vai ser o novo ‘sintonia’ do Primeiro Comando da Capital (PCC) na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.

Pelo menos é o que apontam relatórios de investigações da Polícia Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco-SP), que o Portal Correio do Estado teve acesso.

‘Sintonia’ é o nome dado entre os integrantes da facção aos líderes que possuem certa autonomia para controlar o dinheiro do fluxo do tráfico de drogas e armas, além de decidir desde investimentos, traçar a logística do transporte de produtos ilícitos e até execuções de desafetos e policiais.

A função era ocupada até meados de fevereiro por Elton Leonel Rumich da Silva, o Galã, preso na última terça-feira (27) em um estúdio de tatuagem no Ipanema, bairro de alto padrão da zona sul do Rio de Janeiro.

Na avaliação do Gaeco-SP, a prisão de Galã rompe de vez os vínculos da cúpula do PCC com Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, executado pela facção no Ceará na última semana junto de Fabiano Alves de Souza, o Paca. Ambos eram os integrantes mais poderosos da quadrilha em liberdade.

Assim como Galã foi premiado pela chefia da facção por planejar e colocar em prática a execução de Jorge Rafaat, em junho de 2016, Fuminho sobe na hierarquia da organização criminosa por investigar e denunciar os desvios de dinheiro e gastos exorbitantes de Gegê e seus asseclas, que giravam em torno de R$ 50 milhões, entre mansões e carros importados, pelo que apurou a reportagem.

Como exemplo, Galã foi preso no Rio com uma BMW, seis relógios de marca e R$ 100 mil em dinheiro. O filho de Paca, por exemplo, ganha mesada de R$ 50 mil e mora e estuda na Inglaterra.

CRESCIMENTO

A presença de Gegê, Paca e Galã circulando entre Bolívia e Paraguai, nas fronteiras com Mato Grosso do Sul, significou aumento de rendimento para o PCC, com maior poder de exportação das drogas, mas desagradou os cultivadores.

Após a execução de Rafaat, o trio tinha como meta centralizar toda a produção principal de maconha e cocaína, além de investir também em contrabando e até casas de prostituição, o que desagradou aliados históricos da facção, como o sul-mato-grossense Jarvis Gimenes Pavão, que ajudou no assassinato de Rafaat. Pavão hoje está em um presídio federal em Mossoró (RN), depois de ter sido extraditado pelo Paraguai.

“A presença de dois líderes na região do Paraguai, da Bolívia, propiciou um ganho muito grande pra facção em termos do aumento da quantidade de droga que realmente a facção pôde exportar, inclusive para a Europa”, disse o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco-SP.

Os indícios de insatisfação não demoraram a surgir. Galã, que morava em Pedro Juan Caballero, que faz divisa com Ponta Porã, sofreu um atentado a tiros em julho do ano passado durante inauguração de uma casa noturna.

Dois membros do PCC que estavam no local como seus seguranças morreram. Gegê e Paca se mudaram para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com ordem de Marcola e Abel Pacheco de Andrade, o Vida Loka, segundo na hierarquia da facção. Não poderiam haver casos de ‘torres’ (como são chamados os integrantes da alta cúpulas) mortos em área de instabilidade, como é a fronteira com Ponta Porã.

NOVO CHEFÃO

Foi na época dos atentados que surgiu a figura de Fuminho em terras paraguaias. Desde o início de 2017 ele trabalha para Marcola como intermediário nas fazendas nos países vizinhos. E viraram sócios em empreendimentos agrícolas usados parta lavar dinheiro do tráfico. O Gaeco-SP e a Polícia Federal investigam empresas de Mato Grosso do Sul que podem ser de fachada para a dupla.

A amizade e respeito do chefão da facção com seu subordinado cresceu após ele chegar a Pedro Juan Caballero com a fuga de Galã. Foi quando descobriu os desvios de dinheio e principalmente o repasse de mercadoria a grupos inimigos, que incluiriam até a milícia do Rio de Janeiro.

Segundo relatório do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo (Deic), Fuminho ganhou motivação pessoal para executar Gegê quando o ‘torre’, mesmo da Bolívia, passou a obrigar motoristas funcionários seu a pagarem o prejuízo pelas drogas apreendidas pelas polícias sul-mato-grossenses. Um deles, de absoluta confiança de Santos, foi torturado e morto no Paraguai, em área de fronteira, sem autorização de Marcola e Vida Loka.

Com a autorização do plano e a execução dos rivais bem executada, Fuminho torna-se o membro do PCC mais poderoso fora dos presídios. Ele é procurado pela Justiça Federal desde 2014, quando arquitetou o resgate de Marcola de um presídio de segurança máxima de São Paulo.

De funcionário exemplar, hoje o homem mais procurado pelas polícias do País controla um lucro líquido de R$ 22 milhões só com a venda de maconha em São Paulo, além de gerenciar a exportação de cocaína para Europa e Ásia, em esquema que se iniciaria em Corumbá, segundo aponta a PF.

Fonte: Correio do Estado