Iranianos driblam forças de segurança e fazem novos protestos após derrubada de avião

Universitários se mobilizaram neste sábado e foram reprimidos; estudantes compõem força política importante no Irã

Estudantes iranianos fazem protesto neste sábado após militares admitirem que abateram avião ucraniano civil Foto: ATTA KENARE / AFP

Renato Machado, especial para O Globo

TEERÃ – Manifestantes iranianos driblaram as forças de segurança para organizar um novo ato em memória das vítimas do voo da Ukraine Airlines e contra o regime. A polícia havia montado uma grande operação para reprimir novos protestos, cercando as principais universidades da capital, todas localizadas na região central. A partir do meio da tarde, no entanto, diversos links no Telegram – aplicativo de trocas de mensagem mais usado no Irã – chamaram para a nova manifestação, dessa vez na Praça Azadi (Liberdade), no Oeste de Teerã.

Centenas de pessoas comparecem neste momento ao protesto, que começou por volta das 18h, no horário local (12h30, no horário de Brasília). Novamente, os cantos são contra o líder supremo,  o aiatolá Ali Khamenei,  e a Guarda Revolucionária do Irã.

Vídeos que circulam nas redes sociais também mostram que os protestos se espalharam para outras cidades iranianas. Há registro de pessoas nas ruas cantando slogans contra o regime em Shiraz, Isfahã e Sanandaj.

Na tentativa de evitar uma repetição dos eventos de sábado, as forças de segurança iranianas montaram uma grande operação para reprimir novos protestos dos estudantes universitários. Centenas de policiais – regulares  e tropas especiais – se posicionaram neste domingo em diversos pontos do centro de Teerã. A maioria deles se encontra ao redor das principais universidades da capital, onde ontem protestos pediram a renúncia de Khamenei.

GRANDE OPERAÇÃO

A reportagem do GLOBO circulou na tarde deste domingo – dia útil no Irã – pela região central de Teerã e viu grupos de cerca de dez policiais nas esquinas de todas as saídas da Universidade de Tecnologia Amir Kabir. A maior parte deles porta cassetetes e escudos, mas alguns estão armados com fuzis. Alunos dessa instituição realizaram ontem o maior protesto contra o governo, após uma tarde de vigília para homenagear os 176 mortos na queda do avião da Ukraine Airlines, abatido por engano por um míssil da Guarda Revolucionária do Irã.

Em uma rua perpendicular ao portão principal da universidade, em frente ao Ministério do Petróleo, estão parados ônibus com mais policiais e um caminhão preto e blindado da tropa de choque. No lado oposto, embaixo de um viaduto, cerca de 30 agentes com roupas camufladas aguardam em cima de suas motos.

Dentro do campus da universidade, há um clima de apreensão entre os estudantes. Praticamente não há rodas de bate-papo e os jovens apenas circulam pelo local. Está programada novamente para hoje uma vigília na instituição em homenagem às vítimas do incidente com o avião. Questionado se estava com medo dos policiais armados do lado de fora, um estudante deu um sorriso e respondeu:

— Venha mais tarde para ver se estamos com medo.

Além das cercanias da instituição, grupos de policiais das forças de choque também se encontram em diversos pontos da Avenida Enghelab (Revolução). Essa via praticamente conecta a Amir Kabir – que fica em uma perpendicular – com a Universidade de Teerã, a maior do país. Ao lado da estação de metrô Teatr-e Shahr (Teatro da Cidade), pararam algumas viaturas blindadas, e dezenas de policiais se concentram entre a saída do metrô e o Parque Donexju (dos Estudantes). Passageiros olham assustados para a quantidade de policiais posicionados.

Os protestos na tarde e na noite de ontem eram compostos basicamente pelos estudantes, tanto na movimentação na Amir Kabir quanto na Universidade Sharif. Embora seja possível que houvesse pessoas de fora, praticamente todos eram jovens universitários. Havia pessoas com vestimentas mais conservadoras, que poderiam ter participado da cerimônia de funeral do general Qassem Soleimani, chefe de uma força de elite da Guarda Revolucionária assassinado num ataque de drone dos EUA, no dia 3 em Bagdá. No entanto, os gritos de “Soleimani assassino” indicam que se trata em sua maior parte de um grupo diferente, até então em silêncio por conta da comoção nacional.

A Amir Kabir é considerada uma universidade de elite no Irã. Ela concentra os cursos de engenharia e tecnologia, muito valorizados pela população local. Ao contrário dos demais países, onde os cursos da área de humanas em geral concentram os estudantes mais contestadores, a instituição é um dos motores da vanguarda dos protestos, ao lado da Universidade de Teerã. Uma possível explicação é que os cursos de ciências humanas acabam sofrendo grande influência religiosa em seus currículos.

De forma geral, os estudantes iranianos compõem uma tradicional força política, que se mobilizam constantemente para demandar mudanças. Há pouco mais de dez anos, por exemplo, durante a chamada Revolução Verde, foram os jovens universitários o principal motor dos protestos que pararam o país, após as eleições presidenciais que terminaram com a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Os Basijis – milícia da Guarda Revolucionária que atua internamente – os reprimiram duramente. No episódio mais notório, invadiram na madrugada o dormitório da Universidade de Teerã e espancaram estudantes, homens e mulheres. Cinco estudantes morreram.

Em um passado ainda mais distante, há quatro décadas, estudantes promoveram o famoso episódio da invasão da Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, onde mantiveram diplomatas e servidores reféns durante 444 dias. O evento marca a ruptura das relações diplomáticas entre americanos e iranianos.

EMBAIXADOR DETIDO

O embaixador do Reino Unido em Teerã, Rob Macaire, usou suas redes sociais para se manifestar sobre sua detenção na noite deste sábado, durante os protestos na Universidade Amir Kabir. O diplomata acabou preso por agentes da Guarda Revolucionária e, segundo uma fonte na embaixada, Macaire foi algemado, em alguns momentos teve seus olhos vendados e foi interrogado por três horas, antes de ser libertado.

Macaire negou que estivesse participando ou incitando os protestos. Ele afirma que apenas compareceu à vigília em homenagens às vítimas do voo da Ukraine Airlines, mas teria ficado apenas cinco minutos, deixando o local quando estudantes começaram a cantar os slogans políticos. “Deter diplomatas é obviamente ilegal, em todos os países”, escreveu.

O secretário de Exterior do Reino Unido, Dominic Raab, também divulgou um comunicado no qual afirma que a detenção se configura uma “violação flagrante do direito internacional”. O texto ainda afirma que o Irã está em uma encruzilhada: “Pode continuar sua caminhada em direção a um status de pária, com todo o isolamento político e econômico, ou pode adotar pessoas para desescalar as tensões e se empenhar em um caminho diplomático”.

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